Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007

«Um Toque de Jazz» em Setembro

Sendo O Sítio do Jazz um blog assumidamente pessoal, não se estranhará que o seu autor passe a referir aqui, com regularidade, a programação de Um Toque de Jazz (Antena 2, desde 1993).
 
Neste mês de Setembro – e prosseguindo o ciclo especial de Verão totalmente preenchido com jazz gravado ao vivo – Um Toque de Jazz prestará especial atenção à audição praticamente integral de alguns discos reveladores da singularidade do jazz transalpino e que foram recebidos directamente de Itália, não se encontrando disponíveis no mercado português. Neste âmbito, estarão em destaque actuações de grupos dirigidos pelo contrabaixista Paolo Damiani e pelo saxofonista Eugenio Colombo.
 
Por outro lado, no que toca às gravações não discográficas que iniciarão o mês e que foram recebidas no quadro da Eurorádio, são de sublinhar as actuações da big band da Radiotelevisão Eslovena, para além de um recital a solo pelo pianista Kenny Barron, uma actuação em duo por Enrico Rava (trompete) e Stefano Bollani (piano) e um concerto pelo trio do pianista Don Friedman com o convidado especial Benny Golson, no Festival de Jazz do Báltico em Salzau.
 
Ainda este mês, dois outros concertos por guitarristas oriundos de culturas bem diversas constituem momentos de especial criatividade: Bill Frisell e seu trio no Festival de Jazz de Willisau (Suíça) e Gerardo Nuñez com o convidado especial Perico Sambeat nos Estúdios Rolf Liebermann da rádio pública alemã (Hamburgo).
 
Um Toque de Jazz é transmitido aos sábados e domingos, das 23.05 às 24.00 na Antena 2 e pode ser ouvido em FM ou ainda aqui, via webcast. Após a sua transmissão, as emissões estão disponíveis, também via Internet, na página de arquivos multimédia da Antena 2.
Sábado, 01.09.07Jazz ao vivo (17) – A Big Band da Radiotelevisão Eslovena,sob a direcção de Tadej Tomsic, num concerto realizado em Ljubljana em 29.09.06. Gravação Eurorádio.
Domingo, 02.09.07Jazz ao vivo (18) – O trio do guitarrista Gerardo Nuñez, com Pablo Martin (contrabaixo) e Cepillo (percussão) e a colaboração especial de Perico Sambeat (sax-alto e soprano), num concerto realizado em 16.02.06 nos Estúdios Rolf Liebermann (Hamburgo). Gravação Eurorádio.
Update [07.09.07]: O recital a duo de Enrico Rava e de Stefano Bollani foi anulado em virtude da transmissão directa do concerto comemorativo dos 50 anos da RTP.
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 10:57
Link para este post
Quinta-feira, 30 de Agosto de 2007

Podcasts (1)

O site JazzCorner.com é um dos mais recheados repositórios de recursos relacionados com o jazz que se podem encontrar na Net, sobretudo no que toca aos músicos e à divulgação das suas opiniões sobre esta música que escolheram como forma de expressão.

Muito recentemente, na sua secção Innerviews, descobri por lá um interessante Podcast no qual, para além de exemplos musicais da sua obra, Maria Schneider dá a conhecer as suas opiniões pessoais sobre vários aspectos ligados à actividade criativa.

Significativo é que Maria, logo no início, entenda dever estabelecer a distinção que, na sua opinião, significa arranjar ou compor para grande orquestra, uma questão-chave que, em vários escritos anteriores, me tem interessado vivamente.

Aos interessados nesta intrigante dicotomia, conselha-se vivamente uma visita.

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 11:34
Link para este post
Domingo, 26 de Agosto de 2007

Max Roach (10.01.1924 / 16.08.2007)

(Fotos: DrummerWorld.com)

No editorial que serviu de apresentação a O Sítio do Jazz, sublinhou-se a não absoluta obrigação de aqui reflectir, de forma exaustiva, a passagem de efemérides ou outras ocorrências deste tipo. Mesmo as nefastas, como a morte de músicos importantes na história do jazz.

Entretanto, a circunstância de este escriba ter elaborado um texto sobre Max Roach para o programa do Jazz em Agosto realizado em 1995, da responsabilidade (à data) de Yvette Centeno, então Directora do CAM/Acarte - festival no qual uma série de quatro concertos serviu então de homenagem especial ao histórico baterista-compositor -, levou-me a aproveitar agora excertos desse texto para voltar a sublinhar a importância desta personalidade histórica, recentemente desaparecida, aos 83 anos de idade.

No texto do qual abaixo se apresentam esses excertos, estão assinaladas [entre parêntesis] algumas pequenas actualizações ou alterações devidas ao facto de, entretanto, terem passado doze anos. Do mesmo passo, no final do texto, achou-se oportuno incluir alguns links para outros recursos localizáveis na Net e cuja consulta (e, nalguns casos, visionamento e audição) ajudam a melhor compreender a notoriedade deste enorme músico cujo desaparecimento marcou profundamente os amadores de jazz em todo o mundo.


(...) Quando se pretende analisar a carreira de um músico da estatura de [Max] Roach, as exclusivas referências à sua qualidade de «baterista» e «compositor» resultam claramente insuficientes, já que o grande músico exerceu, durante os mais de [sessenta] anos de uma carreira a todos os títulos notável, actividades artísticas que vão muito para além do irrepreensível brilhantismo do instrumentista ou da fecunda imaginação do criador musical.

(...) [Nascido] em 10 de Janeiro de 1925, em Nova Iorque, Max Roach revela bastante cedo o seu interesse pela arte dos sons. É a sua mãe, cantora de espirituais, que o convence a seguir uma carreira no campo da música e o jovem Roach, ao mesmo tempo que começa a tocar como amador, frequenta o Conservatório de Música de Manhattan onde é diplomado em percussão em 42.

Um acontecimento fortuito - o impedimento momentâneo de Sonny Greer - leva-o a substituí-lo, nesse mesmo ano, na estante da bateria da orquestra de Duke Ellington, para um concerto no Teatro Paramount em Nova Iorque; e o mesmo sucederia, pouco tempo depois, no seio da orquestra de Count Basie. Tinha, apenas, 18 anos de idade! (...)

Mas os anos seguintes iriam ainda proporcionar-lhe uma outra viragem decisiva: a participação pessoal na revolução que então invadia de assalto os clubes da célebre Rua 52, de Nova Iorque, fazendo parelha com os decisivos inovadores de então - Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Thelonius Monk, Bud Powell ou Oscar Pettiford, entre outros.

Bud Powell, Charlie Mingus, Max Roach, Dizzy Gillespie, Charlie Parker

Pode assim dizer-se que coincidiam então no jovem músico duas vivências simultâneas: a honra de coabitar com os mestres das gerações anteriores do jazz clássico, bebendo-lhes os ensinamentos, e o estatuto de protagonista de parte inteira na ruptura que, contemporaneamente, constituia um salto qualitativo em relação ao passado recente e apontava os caminhos do futuro jazz moderno.

Os anos 50 vêem Max Roach criar, de parceria com um outro músico genial - o trompetista Clifford Brown - um dos grupos modelares e mais influentes do novo jazz. E o seu empenhamento político em prol da afirmação dos direitos dos afro-americanos ia progressivamente despertando, na própria música que criava, a tónica de uma intervenção cívica mobilizadora, expressa com vigor na admirável suite We Insist! Freedom Now!, que constituiu um sonoro grito de revolta de uma geração.

Uma particularidade fundamental distingue, entretanto, Max Roach de alguns dos seus contemporâneos que, como ele, foram coexistindo com os desenvolvimentos do jazz (...): a de que jamais o grande músico se conformou em representar uma importante referência histórica, sem dúvida, mas meramente auto-suficiente e situada num tempo determinado.

De facto, quer na actividade docente e de divulgação, quer na diversidade dos seus projectos criativos pessoais, quer ainda na participação musical em experiências conjuntas com alguns dos novos grandes músicos que íam despontando, Max Roach sempre recusou ficar parado no tempo. No campo mais específico do jazz, não podem esquecer-se os seus duetos com outros músicos de relevo, como Dizzy Gillespie, Anthony Braxton, Cecil Taylor, Charlie Mingus, Archie Shepp ou Dollar Brand [Abdulah Ibrahim].

Em outros contextos musicais, são de referir obras notáveis que escreveu para orquestra ou para coro. Mas outros domínios das artes de representação despertam o seu interesse. Aqui ficam anotadas as suas incursões na música para teatro: a trilogia de Sam Sheppard Angel City, Suicide in B-flat e Back Bog Beast Bait, para a cena do LaMama de Nova Iorque, ou Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, para o Repertory Theatre de San Diego; no cinema e na televisão: as bandas sonoras da longa-metragem The Black Sun, do telefilme The Long March, dos documentários Sit Down and Listen ou da série educativa Behind the Scenes; no bailado: a colaboração com a Alvin Ailey Company; ou em diversos projectos nas áreas do audiovisual ou da multimédia, em particular a sua parceria com o performer de vídeo Kit Fitzgerald.

Detentor de prémios internacionais importantes - venceu por duas vezes o Grande Prémio do Disco da Academia de Jazz Francesa e, também, o Prémio da Crítica Discográfica Italiana, para além de inúmeros primeiros lugares nas votações de críticos e leitores da Down Beat -, Max Roach foi ainda galardoado pela Fundação MacArthur em 1988, em reconhecimento das suas elevadas contribuições para a cultura americana, e foi condecorado pelo Estado francês com a Ordem de Comendador das Artes e das Letras.


A formação de Quarteto [que participou no Jazz em Agosto '95 com Odean Pope, Cecil Bridgewater e Tyrone Brown] é, porventura, de entre todas as que Max Roach [dirigiu], aquela que é mais familiar aos amadores de jazz.

Formado em 1971 e exercendo uma actividade constante ao longo das últimas (...) décadas, o Quarteto de Max Roach distingue-se em primeiro lugar pelo facto de não incluir o tradicional piano.

A ausência de um tão importante instrumento de características harmónicas, coloca de imediato o interesse do ouvinte perante o desafio de os principais solistas se bastarem a si próprios na arte de improvisar melodicamente, ao mesmo tempo que têm de interiorizar com maior esforço de concentração a implícita estrutura de acordes subjacentes aos temas que são tocados.

E, no entanto, é significativo que uma das características mais interessantes do repertório do Quarteto - na sua esmagadora maioria saído da pena do líder - resida, precisamente, na originalidade harmónica que reflectem. (...)


(...) A estreia do Duplo-Quarteto de Max Roach, formação mais alargada que passou a integrar o Uptown String Quartet [e que também tocou no Jazz em Agosto '95] realizou-se há cerca de [25 anos] no Avery Fisher Hall do Lincoln Center de Nova Iorque.

Tudo partiu da intenção de Roach em ampliar o espectro instrumental - e, portanto. sonoro e tímbrico - de determinadas obras que pretendia compor, em particular para os álbuns Easy Winners e Bright Moments. Geralmente, essas obras apresentam largos momentos em que, às partes escritas para ambos os quartetos, se sucedem longas improvisações pelos principais solistas.

Mas a utilização de uma formação instrumental clássica, como o quarteto de cordas, não pressupõe da parte do compositor uma insistência - tantas vezes frustrada ao longo da história do jazz - no traçar de uma ponte entre duas linguagens diversas: a do jazz e a da música clássica, tendente a uma hipotética terceira corrente.

Também não resulta desta combinação qualquer suspeita de artifícios, tão frequentes em outras experiências só aparentemente semelhantes: utilizar as cordas como dispositivos fornecedores de um mero tapete sonoro uniforme, apenas insólito pela «novidade» tímbrica mas carente de verdadeiro interesse musical, ausente que dele está uma escrita dinâmica e substituída que esta é pela paupérrima e cómoda produção, em acordes verticais evoluindo horizontalmente, de um simples aglomerado de breves e semibreves, de duvidosa criatividade.

Pelo contrário, é de salientar em algumas das obras de Max Roach escritas para esta dupla-formação a participação activa do quarteto de cordas - e, mesmo, de alguns dos seus membros enquanto solistas.

Com uma constituição atribuída em exclusivo a instrumentistas do sexo feminino - o que releva da importância atribuída por Max Roach ao papel criador das mulheres, também no jazz - o Uptown String Quartet tem [1995] a seguinte formação. Diane Monroe (1º. violino), Lesa Terry (2º. violino), Maxime Roach (viola) e Eileen Folson (violoncelo).


(...) Para o habitual frequentador de concertos - e mesmo para o mais intrépido e disponível iniciado no jazz - a participação mais insólita de Max Roach neste conjunto de concertos [com que se inicia o Jazz em Agosto '95] é, sem dúvida, o seu concerto a solo.

Se se quiser ser rigoroso, é preciso dizer-se que a tradição da bateria na música afro-americana - com a particular aglomeração de tambores, pratos e outros dispositivos e a respectiva disposição que hoje lhe conhecemos - apresenta traços singulares, inteiramente explicados pelas suas próprias origens.

Em primeiro lugar, está o facto de ela ter sido em boa verdade «inventada» pelo jazz, na perspectiva de concentrar num único músico as (mais explícitas) funções rítmicas desta música - um lugar comum que pode encontrar-se em qualquer dicionário ou enciclopédia, por vezes sob a velha e pitoresca alcunha de jazzband (!).

Depois, é necessário reconhecer que toda e qualquer mudança qualitativa verificada no jazz, ao longo de mais [de um século], esteve intrinsecamente ligada à evolução da bateria. (...)

Interessante e irrecusável é reconhecer, entretanto, que uma tão decisiva importância da bateria na evolução do jazz, cujo estatuto de progressiva afirmação e autonomia foi erguido por uma plêiade de músicos verdadeiramente geniais, pode ser comprovada até à exaustão independentemente de se tratar de um instrumento de som indeterminado - ou seja, em termos simples, composto em exclusivo por dispositivos e meios de percussão incapazes de produzir, sequer, uma nota musical!

Sem ignorar as contribuições trazidas pelos seus gloriosos antepassados, afirmar que Max Roach foi dos primeiros (para não arriscarmos afirmar ter sido o primeiro) a transformar a bateria num elemento capaz de globalmente intervir de igual para igual numa formação de jazz, em termos «musicais», mais do que apenas «rítmicos» - é um acto de inteira justiça.

O concerto [a que o espectador vai assistir] representa, então, um desafio suplementar à sua própria disponibilidade para a enriquecedora descoberta dos temas, das variações, das perguntas e respostas, dos solos e dos acompanhamentos, do cruzamento dos ritmos regulares com elementos polirítmicos, dos vigores e das subtilezas postos pelo grande músico ao serviço da criação, em progresso, de estruturas musicais as mais insuspeitadas.


Um dos projectos musicais a que Max Roach nunca deixou de dedicar a maior atenção ficou conhecido por M'Boom. Tratava-se de reunir à sua volta um conjunto de bateristas e percussionistas de primeiro plano para a formação de um conjunto instrumental ainda não experimentado no âmbito do jazz.

Tudo começou em 70, com a participação original de oito músicos, todos percussionistas multidisciplinares, e, alguns deles, também compositores: Joe Chambers, Warren Smith, Roy Brooks, Omar Clay, Ray Mantilla, Fred King e Freddie Waits, este último substituído por Eli Fountain após a sua morte. Mais tarde, Max convidaria ainda Steve Berrios, Francisco Mora, Jr. e Craig Melver para se juntarem a estes oito elementos iniciais.

A nova conjugação de instrumentos de percussão de som determinado - como o vibrafone, o xilofone ou os tímpanos - com diversas unidades da tradicional bateria permite já a produção de obras em que os solos conjuntos ou individuais harmoniosamente se fundem com as partes previamente escritas por Max Roach.

Este último concerto que culmina a presença do grande músico entre nós constitui, ainda, a oportunidade para este apresentar publicamente o resultado de um curto workshop por si orientado durante três dias com alguns dos mais destacados bateristas e percussionistas nacionais [ou com prática musical desenvolvida em Portugal], estando prevista a participação no concerto dos seguintes dez músicos: Acácio Salero, Alexandre Frazão, André Sousa Machado, Brendam Hemsworth, Bruno Pedroso, Carlos Vieira, Henry Sousa, João Balão, José Salgueiro e João Silvestre.

Outros recursos:

The Mercury News

  Vídeoclips de Max Roach:

- «Drum Battle» (1968) com Art Blakey e Elvin Jones

- Quinteto (1958) com Booker Little

- Quinteto (inícios de 60) com Abbey Lincoln e Clifford Jordan

- Quarteto (1977) com Billy Harper, Cecil Bridgewater e Reggie Workman

- Duo (1989) com Cecil Taylor

NPR - National Public Radio, EUA

- Página dedicada a Max Roach, com links para várias gravações históricas de arquivo

The New York Times

- Texto sobre funeral de Max Roach (Peter Keepnews, 25.08.07)


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 11:24
Link para este post
Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007

Transparente e quentinha...

(Foto: TecnoCientista.info)

Como eu quereria já ter mudado (como, desde o início, está pensado) a foto do cabeçalho deste blog! E, no entanto, pensando bem, como eu gostaria também de estar agora a dar um mergulho naquelas águas transparentes e certamente quentinhas!

Têm-me perguntado que estará ali a fazer a imagem paradisíaca de abertura. Clarinho como água: é a imagem que já vinha com o template original do «desenho» deste blog e, até agora, a incapacidade técnica - e a tradicional aversão a ler com muita atenção todo e qualquer manual ou os helps dos softwares - têm-me impedido de ali pôr um saxofone ou qualquer outra imagem relacionada com o jazz.

Não desesperemos, porém. Como sempre disse, isto andará por aqui devagarinho, pé ante pé. Por causa do peixe-aranha.


Actualização (28.09.07) - A imagem do cabeçalho foi finalmente mudada! Agora, aquele sax e aquelas teclas do piano têm mais a ver com o jazz. Mas ainda pode ficar melhor... É preciso é calma!


Tags:
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 09:35
Link para este post
Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

Ainda o «Jazz em Agosto» (um flashback tardio)

Joe Fonda's Bottoms Out

 

(Fotos: cortesia de Joaquim Mendes e Fundação Calouste Gulbenkian)

 

Quem, como eu, tivesse comprado o álbum Loaded Basses à saída do concerto pelo Joe Fonda's Bottoms Out - que abriu, no Anfiteatro ao Ar Livre da FCG, a segunda parte do Jazz em Agosto deste ano - teria podido chegar de novo a uma constatação com que tantas vezes nos defrontamos: por muitos cuidados técnicos e segurança interpretativa que o trabalho em estúdio possa assegurar, nada melhor, as mais das vezes, do que assistir in loco à actuação de um dado grupo, ganhando a música ouvida maior genuinidade.

 

O certo é que algumas peças que compõem o line up de Loaded Basses haviam sido tocadas no concerto acabado de realizar pelo sexteto do contrabaixista. E como tinham soado bem melhor! Para esta radical diferença, terão sobretudo contribuído de forma negativa as habituais preocupações de produção (sem dúvida bem intencionadas) por parte da CIMP, a editora que publicou o álbum, sempre procurando idealmente garantir em estúdio (e defendendo-a na própria contracapa dos CDs) a mais pura das fidelidades auditivas... mas quase sempre contrariando os generosos propósitos nos resultados concretos das suas edições!

 

Recomeçava assim o Jazz em Agosto 2007, com um grupo forte e fortemente liderado mas, aqui e ali, bafejado também por aquela passageira e bem-vinda falta de coesão e perfeccionismo que tantas vezes contribui, afinal, para a real verdade da música. Um jazz inequívoco, bem apoiado na vertente da composição mas dando largo espaço à improvisação (estruturada e livre, individual e colectiva) que tão bem apimentou e até chegou a desviar do seu caminho o traço composicional de origem.

 

Bem perto de Joe Fonda, física e conceptualmente, Gerry Hemingway e a sua polivalência técnica e cultura jazzística fizeram toda a diferença, se as compararmos com a indigência de uma outra personagem que ajudara a arruinar (na primeira parte do festival) a actuação já mais que sofrível da Crimetime Orchestra (Noruega). Demonstrando que, neste jazz feito de sínteses insuspeitadas, swingar às vezes não é pecado, Fonda e Hemingway construíram e destruíram o continuum rímico e souberam criar elos e fracturas, lá onde elas eram necessárias à invenção da música e à energia dos solistas.

 

Entre estes, Joe Daley (tuba) evoluiu à altura das exigências, Claire Daly (sax-barítono) esteve mais recatada, Michael Rabinowitz (fagote) afirmou-se mais exuberante (e mesmo empolgante) e Gebhard Ullmann (clarinete-baixo) foi o mais criativo de todos, embora com alguma discrição, provando ser no jazz de hoje talvez aquele que melhor assimila e reavalia, de forma evolutiva, a sempre fabulosa herança de Eric Dolphy.

 


 

Na noite seguinte, a tranquila e erudita actuação do Quartet Noir (EUA, Suiça, França), conseguiu e permitiu-nos resistir à brisa já algo fria que contrastava com a cálida noite da véspera, demonstrando como a melhor música improvisada de hoje, cuidando das dinâmicas em contraste e da repartição das várias vozes instrumentais, se não compadece com as veleidades alvares que continuam a dar irresponsável rédea livre à velha consigna: «todos ao molho e fé em Deus».

 

Com o único senão, que me ficou, de um certo e desnecessário aparato contorcionista por parte de Urs Leimburger (saxofones) - músico, de resto, altamente estimulante no plano técnico em intensas passagens dos seus solos e na subversão da própria matéria do instrumento -, quer a transparência da afinação e mestria percussiva de Fritz Hauser (bateria) quer o contributo sempre incisivo e musicalmente disperso de Joëlle Léandre (contrabaixo) deram corpo ao que de melhor e mais sério há na chamada «composição em progresso».

 

E que dizer, enfim, de Marilyn Crispell? Permito-me discordar dos que consideram ter sido a sua actuação demasiado «recuada». Se bem entendi, a pianista avaliou até da melhor maneira a oportunidade de intervir (a solo, enquanto suporte ou como elemento subtilmente contrastante) na estratégia comummente assumida de repartir responsabilidades. E deixou claro, de forma implícita, que é melhor ficar-se calado quando não há nada de especialmente interessante ou importante a dizer!

 


 

A mesma Joëlle Léandre do Quartet Noir iria protagonizar, na tarde seguinte, um dos melhores recitais do festival. Actuando em solo absoluto, alternando peças de livre improvisação, admirável espontaneidade e crescendo criativo com outras peças compostas por John Cage ou Giacinto Scelsi, ela ofertou-nos o contrabaixo como um instrumento total, usando desta vez um pouco mais o pizzicato em contraste com a fricção do arco e fazendo insinuar numa actuação de contexto musical, com extremo bom gosto e humor,  momentos de intervenção histriónica inteiramente adequados à performance (é o termo) que nos deixou. Ficou ainda na memória a espantosa série de harmónicos, sempre resultando numa única e mesma nota (!), produzidos nas quatro cordas e nas várias (e afastadas) posições do contrabaixo.

 

Exibindo as convicções de uma outra via de improvisação, Joëlle Léandre foi mais uma voz instrumental de excepção que, ao lado das presenças anteriores de um Bruno Chevillon ou de um Barry Guy naqueles palcos, ajudou a fazer-nos compreender o potencial e a polivalência do contrabaixo no jazz e na música improvisada actuais. 

 


 

Já o quarteto Timbre tinha pela frente uma tarefa árdua, cuja dificuldade extrema não pode ignorar-se: ter de improvisar a quatro vozes sobre estruturas vagamente prédefinidas mas apenas usadas, aqui e ali, como meros e conjunturais pontos de encontro, transição e partida para novos voos, é obra! Sobretudo utilizando um instrumento, a voz humana, cuja afinação não depende da exacta colocação dos dedos numa tecla ou numa chave! Que o diga Lauren Newton, de longe a mais estimulante personalidade do quarteto.

 

E, no entanto, nos primeiros 25 minutos do concerto, a capacidade de criar música com qualidade e novidade foi notável, sendo que (em peças assim improvisadas) os eventuais encontros no terreno da consonância são bem mais difíceis e inesperados do que os desencontros gratuitos na movediça área da... dissonância! A seguir a isto, era difícil aguentar um nível tão elevado e o «argumento» do trombone foi surgindo como sustentação extra e, às vezes, como elemento de diversão.

 


 

Por último, o tão aguardado concerto pelo quinteto de Ornette Coleman teve as manchetes, os artigos, os telejornais, as rádios, o ruído de fundo e, portanto, o enquadramento mundano que seria de esperar. Mesmo por parte de quem jamais fez a mais pálida ideia de quem seja o senhor e do que ele representou na história do jazz moderno. Apetece-me, portanto, poupar as palavras.

 

Tal como no concerto de abertura (sobretudo pela presença de Muhal Richard Abrams e Roscoe Mitchell), esteve em palco o peso da história e perpassou em parte da plateia a emoção de ver o mestre porventura pela última vez em concerto. Mas logo à primeira nota se percebeu que a desajustada e exagerada intensidade sonora que agredia o PA do Grande Auditório (quiçá por obra e desgraça de um engenheiro de som trazido pelo próprio Ornette!) iria tornar o concerto num relativo tormento, embora sofrido com gosto e cumplicidade.

 

Isto e a proverbial (e há muito consabida) incapacidade de Denardo Coleman para encontrar, na bateria, qualquer coisa de útil e interessante para percutir - aliado à embrulhada tímbrica que, em muitos momentos, constituiu a junção em palco de três-contrabaixos-três (um deles eléctrico!) - roubou a necessária transparência e inteligência ao que de melhor Ornette ainda tem para nos dar na música, pesem embora as fragilidades do seu pensamento.

 

Restou grande parte do repertório de Sound Grammar (o seu último álbum), essa espécie de regresso à pureza original de The Shape of Jazz to Come, a par das experiências posteriores no Golden Circle de Estocolmo. E ficou-nos o ataque ainda poderoso do próprio saxofonista, sempre desconcertante na sua forma única de aliar as ideias temáticas mais simples, exíguas e (dir-se-ia) quase-ingénuas, às complexas explosões de liberdade e irreverência improvisativa que, já nos idos de 1960/1970, começavam a compor as palavras de ordem que deram corpo à mais radical revolução de todo o jazz. E pairou ainda, porque não, um brilhozinho nos olhos, com o emocionante encore de Lonely Woman.

 

Encerrava, pois, na principal sala de visitas da casa, o Jazz em Agosto deste ano, no qual - a julgar pelo que escutei nos vários palcos e pelo que me contaram ouvidos insuspeitos sobre alguns concertos da primeira parte, que não pude frequentar - o jazz explícito esteve alguns furos abaixo do que de melhor aconteceu na música improvisada. O que não deixa de ser recorrente e sintomático. 


Tags:
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 09:27
Link para este post
Sábado, 18 de Agosto de 2007

Aquilo que «O Sítio do Jazz» procura vir a ser...

Ainda antes de tratar das fotos, dos links e de tudo o que é trivial num blog, talvez seja preferível, por agora, dar uma ideia de o que aqui me traz nos próximos tempos, nesta fase transitória para um salto mais complicado que pode vir a ser o de construir, a médio prazo, um sítio que seja mesmo um site!

Por uma questão de feitio, com esta versão d' O Sítio do Jazz, trata-se de fazer um pouco ao contrário do que é mais habitual num blog. Ou seja, não se pretende aqui marcar o ponto todos os dias (nem nada que se pareça!), na tentativa de inventar assunto que não há, de comentar tudo e todos, de estar em cima da última notícia (mesmo que ela seja a do esperado desaparecimento de uma das últimas lendas do jazz ainda vivas), de discorrer acerca de todos os discos comprados ou recebidos e sobre todos os concertos a que se assistiu.

Acima de tudo, procurar-se-á contrariar a tendência que (nos piores casos) parece detectar-se nos blogs em geral: a tentação de escrever um diário (mesmo quando a adolescência já lá vai há muito) ou então o risco de continuamente «olhar para o próprio umbigo», com o supremo disfarce de parecer estar a prestar-se serviço público!

Por último, do mesmo modo - e a menos que me chegue a mostarda ao nariz -, penso também que não haverá lugar neste blog à discussão azeda, à polémica menos saudável e muito menos ao insulto, já que apenas se pretende deixar aqui algumas opiniões breves ou mesmo ideias, falíveis como quaisquer outras. Com paz e sossego.

E é isto! De momento, não me lembro de qualquer outra coisa que este blog procure não vir a ser...

Já agora: penso, em breve, fazer um flashback em relação à segunda parte do Jazz em Agosto deste ano, que não pude abordar em tempo útil, porque deixou de haver sítio para tal.

(Update: Surgem os primeiros elementos gráficos. Editou-se o título deste post, um «pecado» na blogosfera! Incluíu-se uma primeira lista de links. Vai-se apurando o estilo, neste media que ainda não se conhece...)


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 14:35
Link para este post

Post Scriptum (é melhor assim, por extenso...)

Afinal, mais cedo do que tarde - e ao contrário do que parecia provável -, acabei por arranjar uma alternativa. Talvez a mais óbvia de todas: um blog, estava-se mesmo a ver!

Claro que ainda estou a experimentar e a... «costumizar», como se diz nesta área.

Julguei que seria mais complicado. Mas, que diabo!, também podia ser ainda mais fácil.

Acho eu.

Terei de aprender nos próximos dias como se faz upload de fotos, como se colocam links, como se substitui aquela paradisíaca paisagem do cabeçalho por um saxofone ou coisa que o valha!

Entretanto... vou ali e já venho!

(talvez amanhã...)


Tags:
Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 14:19
Link para este post

Área pessoal

Pesquisar neste blog

 

Outubro 2014

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Para memória futura

Bernardo Sassetti (1970 ...

E no entanto ele move-se....

Ao vivo... Adam Rogers & ...

Em directo, do Village Va...

11 de Fevereiro de 2012

Depois da reabertura, a r...

Vídeos recentes (made in ...

A redonda celebração do G...

A redonda celebração do G...

Visionamentos...

Primeira audição

Consta por aí...

Jazz em Newport (2011)

Os 20 anos do Jazz no Par...

Serralves: já lá vão dua...

Intervalo (11)

Intervalo (10)

Intervalo (09)

Intervalo (08)

Intervalo (07)

Intervalo (06)

Intervalo (05)

Intervalo (04)

Intervalo (03)

Intervalo (02)

Intervalo (01)

Quem não se sente...

Sempre!

"Um Toque de Jazz" em Fev...

Arquivos

Outubro 2014

Maio 2012

Abril 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Tags

achados no baú

achados no baú (14)

achados no baú (15)

achados no baú (16)

achados no baú (17)

achados no baú (18)

achados no baú (19)

achados no baú (20)

achados no baú (21)

achados no baú (22)

achados no baú (23)

achados no baú (24)

achados no baú (25)

animação

ante-estreias

ao vivo

àpartes

arquivos

artigos de fundo

balanços

blogs

boas festas

bónus de verão

cinema

clubes

colectâneas

concertos

concertos internacionais

concertos portugueses

cooncertos

dedicatórias

descobertas

desenhos

directo

discos

discos em destaque

discos estrangeiros

discos nacionais

distribuidoras

divulgação

documentos históricos

editoras

editoriais

editorial

efemérides

em directo

ensino

entrevistas

escolas

escutas

férias

festivais

fotografia

gravações ao vivo

grupos estrangeiros

história

história afro-americana

homenagens

hot clube

humor

internet

intervalos

jazz

jazz ao vivo

jazz no cinema

leituras

links

live stream

livros

mp3

música sinfónica

músicos

músicos estrangeiros

músicos internacionais

músicos portugueses

músicos residentes

músios estrangeiros

natal

novos discos

obras-primas

pavões

pessoas

podcasts

portugal

prémios

primeira audição

produtores

produtores estrangeiros

r.i.p.

rádio

recursos

reedições

televisão

um bónus de verão

um toque de jazz

video-clip

vídeos

village vanguard

visionamentos

visitas

todas as tags

Links

Subscrever feeds